Meditação diária

11 DE JUNHO

52. SÃO BARNABÉ APÓSTOLO

Memória

– Magnanimidade no apostolado.

– Saber compreender para poder ajudar.

– Alegria e espírito positivo no apostolado com os nossos amigos.

Natural de Chipre, Barnabé é contado entre os primeiros fiéis de Jerusalém. Foi quem apresentou São Paulo aos Apóstolos, e depois acompanhou-o na sua primeira viagem apostólica. Participou do Concílio de Jerusalém e foi uma figura de grande importância na Igreja de Antioquia, o primeiro núcleo cristão numeroso fora de Jerusalém. Era parente de Marcos, sobre o qual exerceu uma influência decisiva. Tendo retornado à sua pátria, evangelizou-a e morreu mártir por volta do ano 63. O seu nome figura na Oração Eucarística I.

I. BARNABÉ SIGNIFICA filho da consolação, e foi o sobrenome dado pelos Apóstolos a José, levita e cipriota de nascimento1, pelo seu espírito conciliador e pela sua simpatia, segundo comenta São João Crisóstomo2.

Depois do martírio de Estêvão e da perseguição que se seguiu, alguns cristãos chegaram até Antioquia, e lá propagaram a fé cristã. Quando os Apóstolos tiveram notícia em Jerusalém das maravilhas que o Espírito Santo realizava nessa região, resolveram enviar para lá Barnabé3. Profundamente empenhado na expansão do Reino, Barnabé quis contar desde o primeiro momento com instrumentos idôneos para empreender aquele imenso trabalho que lhe era confiado, e dirigiu-se a Tarso a fim de convidar Paulo a acompanhá-lo. Tendo-o encontrado, levou-o a Antioquia. Passaram juntos um ano inteiro nesta Igreja e instruíram uma grande multidão, narram os Atos dos Apóstolos4. Barnabé soube, pois, descobrir no recém-convertido aquelas qualidades que o levariam a transformar-se, pela graça, no Apóstolo das gentes. Pouco tempo antes, apresentara Paulo aos Apóstolos de Jerusalém, num momento em que muitos cristãos continuavam a ter receio do seu antigo perseguidor5.

Em companhia de São Paulo, Barnabé realizou a primeira viagem missionária, que tinha por objetivo a ilha de Chipre6. Ia com eles o seu primo Marcos, que, no entanto, desistiu a meio do caminho e regressou a Jerusalém. Quando São Paulo projetou a segunda grande viagem missionária, Barnabé quis novamente que Marcos os acompanhasse, mas Paulo achou que não devia ser admitido um homem que se tinha separado deles na Panfília, e não os tinha acompanhado naquela tarefa7. Produziu-se uma forte dissensão entre ambos, de sorte que se separaram um do outro…8

Barnabé não abandonou o seu primo Marcos, talvez então muito jovem, depois daquela defecção em que as forças lhe falharam. Soube reanimá-lo e fortalecê-lo, e fazer dele um grande evangelizador e um eficacíssimo colaborador de São Pedro e do próprio Paulo, com quem Barnabé continuou unido9. Mais tarde, Paulo demonstrará a maior estima por Marcos10, “como se visse refletida nele a simpatia e as gratas recordações de Barnabé, o amigo da juventude”11.

São Barnabé convida-nos hoje a ter um coração grande na tarefa apostólica, um coração que nos leve a não desanimar facilmente perante os defeitos e retrocessos dos amigos ou parentes que queremos levar ao Senhor, a não deixá-los de lado quando fraquejam ou talvez não correspondam às nossas atenções e à nossa oração. Essa possível falta de correspondência, às vezes aparente, deve levar-nos a exceder-nos no trato com eles, a ter um sorriso mais aberto, a multiplicar o recurso aos meios sobrenaturais.

II. IDE E PREGAI, DIZENDO: Aproxima-se o reino dos Céus. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expulsai os demônios…

Este mandato do Senhor, que lemos no Evangelho da Missa12, deve ressoar no coração de todos os cristãos. É a missão apostólica que cada um deve empreender pessoalmente no lugar onde se vai desenvolvendo a sua vida: a cidade, o bairro, a empresa, a Universidade… Encontraremos mortos, que teremos de levar ao sacramento da Penitência para que recuperem a vida sobrenatural; enfermos, que não podem valer-se a si mesmos e é preciso ajudar para que se aproximem de Cristo; leprosos, que ficarão limpos pela graça através da nossa amizade; endemoninhados, cuja cura exigirá de nós uma generosa oração e penitência…

Além da constância – não podemos esquecer que “as almas melhoram com o tempo”13 –, devemos ter presentes as diversas situações e circunstâncias em que se encontram as pessoas que precisam da nossa ajuda. Sabemos que Barnabé era um homem bom, que mereceu o sobrenome defilho da consolação e levou a paz a muitos corações. Da sua grandeza de coração, falam-nos os Atos dos Apóstolos na primeira notícia que nos dão dele:Possuía um campo, vendeu-o e levou o preço e depositou-o aos pés dos Apóstolos14. Assim pôde seguir mais livremente o Senhor. Ora bem, uma alma benévola e desprendida está em condições de acolher a todos e de compreender o verdadeiro estado em que as almas se encontram. Quando alguém se sente compreendido, é mais fácil que se deixe ajudar. A melhor arma do cristão na sua ação apostólica é precisamente esta atitude aberta, acolhedora, a única que sabe captar a fundo a situação dos outros, pois “ninguém pode ser conhecido a não ser em função da amizade que lhe têm”15.

Para compreender, é preciso olhar os outros pelo ângulo das muitas coisas positivas que têm e ver as suas faltas somente num contexto de boas qualidades, reais ou possíveis, e com o desejo de ajudá-los. “Procuremos sempre olhar as virtudes e as coisas boas que vemos nos outros, e tapar-lhes os defeitos com os nossos grandes pecados”16, aconselhava Santa Teresa de Jesus. E São Bernardo exortava vivamente: “Ainda que vejais algo de mau no vosso próximo, não o julgueis num instante, antes desculpai-o no vosso interior. Desculpai a intenção, se não puderdes desculpar a ação. Pensai que a terá praticado por ignorância, por surpresa ou por infelicidade. Se a coisa for tão clara que não possais dissimulá-la, mesmo então procurai pensar assim e dizei no vosso íntimo: a tentação deve ter sido muito forte”17.

Temos que aprender do Senhor a saber conviver com todos, a não levar muito em conta as faltas de correspondência, de educação ou de generosidade daqueles que nos rodeiam, fruto muitas vezes da ignorância, da solidão ou do cansaço. O bem que pretendemos realizar está acima dessas ninharias que, encaradas na presença de Deus, deixam de ter importância.

“Procuras relacionar-te com esse colega que mal te dá os bons dias…, e isso custa-te. – Persevera e não o julgues; deve ter os «seus motivos», da mesma maneira que tu alimentas os teus para rezar mais por ele em cada dia”18.

Esses nossos “motivos” têm a sua origem e o seu centro no Sacrário.

III. SALMODIAI O SENHOR com a cítara, / ao som do saltério e com a lira. / Com a tuba e a trombeta / elevai aclamações na presença do Senhor-Rei19

É possível que alguns cristãos, à vista de um ambiente afastado de Deus e perante modos de vida tíbios ou escandalosos naqueles que deveriam ser exemplares, se deixem levar por um “zelo amargo”. Procuram fazer o bem, sem dúvida, mas lamentam-se continuamente do mal que prolifera, reprovam a cada instante a sociedade e aqueles que – no seu entender – deveriam tomar medidas drásticas para atalhar esses males… O Senhor não nos quer assim: Ele deu a sua vida na Cruz, com serenidade e paz, por todos os homens. Seria um grande fracasso se os cristãos adotassem uma atitude negativa em face do mundo que devem salvam.

As primeiras gerações que seguiram Jesus Cristo estavam cheias de alegria, apesar das freqüentes tribulações que tiveram de sofrer. Quando São Lucas, nos Atos dos Apóstolos, se propõe fazer um resumo das pequenas comunidades que iam aparecendo por toda a parte, diz que a Igreja se fortalecia e caminhava no temor do Senhor, e aumentava em número com o consolo do Espírito Santo20. É a paz do Senhor, que nunca nos faltará se o seguirmos de perto; é a paz que devemos dar a todos.

Imitando o Senhor, devemos fugir das atitudes condenatórias, severas, com travos de amargura. Se nós, cristãos, viemos trazer a alegria ao mundo, como podemos julgar os outros se não temos os elementos de juízo necessários e, sobretudo, se ninguém nos deu essa missão? A nossa atitude diante de todos deve ser sempre de salvação, de paz, de compreensão, de alegria…, mesmo diante daqueles que num momento ou noutro possam ter-nos tratado injustamente. “Compreensão, caridade real. Quando a tiveres conseguido de verdade, terás o coração grande para com todos, sem discriminações, e viverás – também com os que te maltratam – o conselho de Jesus: «Vinde a mim todos os que andais abatidos…, e Eu vos aliviarei»”21. Cada cristão é “Cristo que passa” no meio dos seus, que lhes alivia as cargas e lhes mostra o caminho da salvação.

Ao terminarmos a nossa oração, pedimos ao Senhor, com a liturgia da Missa, aquele amor ardente que impeliu o Apóstolo Barnabé a levar às nações a luz do Evangelho22. Ele no-lo concederá se o pedirmos além disso por intermédio de Nossa Senhora: Sancta Maria, Regina Apostolorum, ora pro nobis…, ajuda-nos na tarefa apostólica que queremos realizar com os nossos parentes, amigos e conhecidos.

(1) Cfr. At 4, 36; (2) cfr. São João Crisóstomo, Homilias sobre os Atos dos Apóstolos, 21; (3) At 11, 23; (4) At 11, 26; (5) cfr. At 9, 26; (6) cfr. At 13, 1-4; (7) At 15, 38; (8) At 15, 40; (9) cfr. 1 Cor 9, 5-6; (10) cfr. Col 4, 10; Fil 24; 2 Tim 4, 11; (11) J. Prado, em Gran Enciclopedia Rialp, verbete Barnabé, vol. IV, 5ª ed., Madrid, 1989, pág. 91; (12) Mt 10, 7-13; (13) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 78; (14) At 4, 37; (15) Santo Agostinho, Sermão 83; (16) Santa Teresa, Vida, 13, 6; (17) São Bernardo, Sermão 40 sobre o Cântico dos Cânticos; (18) Josemaría Escrivá, Forja, n. 843; (19) Sl 98, 56; Salmo responsorial da Missa do dia 11 de junho; (20) At 9, 31; (21) Josemaría Escrivá, Forja, n. 867; (22) Oração sobre as oferendas, ib.