
TEMPO COMUM. VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO. CICLO A
73. O PAPA, FUNDAMENTO PERPÉTUO DA UNIDADE
– Jesus promete a Pedro que ele será a rocha sobre a qual edificará a sua Igreja.
– Amor ao Papa.
– Onde está Pedro, aí está a Igreja, aí encontramos a Deus. Acolher a palavra do Papa e dá‑la a conhecer.
I. O EVANGELHO DA MISSA1 apresenta‑nos Jesus com os seus discípulos em Cesaréia de Filipe. Tinham chegado àquela região depois de deixar Betsaida e de empreender o caminho do Norte pela margem oriental do lago2. Enquanto caminham, Jesus pergunta aos Apóstolos: Quem dizem os homens que é o Filho do homem? E depois de eles lhe terem referido as diversas opiniões das pessoas, Jesus pergunta‑lhes diretamente: E vós quem dizeis que eu sou?
“Todos nós – comentava o Papa João Paulo II em Belo Horizonte – conhecemos esse momento em que já não basta falar de Jesus repetindo o que os outros disseram, em que já não basta referir uma opinião, mas é preciso dar testemunho, sentir‑se comprometido pelo testemunho dado e depois ir até aos extremos das exigências desse compromisso. Os melhores amigos, seguidores, apóstolos de Cristo, foram sempre aqueles que perceberam um dia dentro de si a pergunta definitiva, incontornável, diante da qual todas as outras se tornam secundárias e derivadas: «Para você, quem sou Eu?»”3 Todo o futuro de uma vida “depende da nossa resposta nítida e sincera, sem retórica nem subterfúgios, que se possa dar a essa pergunta”4.
Essa pergunta encontrou particular ressonância no coração de Pedro, que, movido por uma graça especial, respondeu: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Jesus chama‑o bem‑aventurado por essa resposta cheia de verdade, na qual confessou abertamente a divindade dAquele em cuja companhia andava há vários meses. Esse foi o momento escolhido por Cristo para comunicar ao seu Apóstolo que sobre ele recairia o Primado de toda a sua Igreja: E eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado também nos céus; e tudo o que desligares na terra será desligado também nos céus.
Pedro será a rocha, o alicerce firme sobre o qual Cristo construirá a sua Igreja, de tal maneira que nenhum poder poderá derrubá‑la. E foi o próprio Senhor que quis que ele se sentisse apoiado e protegido pela veneração, amor e oração de todos os cristãos. Se desejamos estar muito unidos a Cristo, devemos está‑lo em primeiro lugar a quem faz as suas vezes aqui na terra. “Que a consideração diária do duro fardo que pesa sobre o Papa e sobre os bispos, te inste a venerá‑los, a estimá‑los com verdadeiro afeto, a ajudá‑los com a tua oração”5.
II. E EU TE DAREI as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado também nos céus…
As chaves são símbolo do poder e da autoridade: E porei as chaves da casa de Davi sobre os seus ombros, lê‑se na primeira Leitura6 a propósito de Eliacim, mordomo do palácio real. O poder prometido a Pedro, e que lhe será conferido depois da Ressurreição7, é imensamente superior. Não recebe as chaves de um reino terreno, mas do Reino dos céus, do Reino que não é deste mundo, embora se incoe aqui, e que durará eternamente. Pedro tem o poder de ligar e desligar, quer dizer, de absolver ou condenar, de acolher ou excluir. E esse poder é tão grande que aquilo que ele decidir na terra será ratificado no Céu. Para exercê‑lo, conta com uma assistência especial do Espírito Santo.
Desde o primeiro dia em que conheceu Jesus, o Apóstolo chamar‑se‑á para sempre Petrus, pedra. E eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja8. Com esta mudança de nome, o Senhor quis indicar a nova missão que lhe seria encomendada: a de ser o fundamento firme do novo edifício, a Igreja. “É como se o Senhor lhe dissesse – escreve São Leão Magno –: «Eu sou a pedra que não se quebra, Eu sou a pedra angular […], o alicerce fora do qual ninguém pode edificar; mas também tu és pedra, porque pela minha virtude adquiriste tal firmeza que terás juntamente comigo, por participação, os poderes que Eu tenho em propriedade»”9.
Os cristãos veneraram o Papa desde os começos da Igreja. Nos textos revelados, o Príncipe dos Apóstolos é mencionado em primeiro lugar10 e está revestido de especial autoridade perante os outros: é ele que propõe a eleição de um novo Apóstolo para que ocupe o lugar de Judas11, que toma a palavra no dia de Pentecostes e converte os primeiros cristãos12, que responde perante o Sinédrio em nome de todos13, que castiga com plena autoridade Ananias e Safira14, que admite o primeiro gentio na Igreja, o centurião Cornélio15, que preside o Concílio de Jerusalém e rejeita as pretensões de alguns cristãos provenientes do judaísmo sobre a necessidade da circuncisão, afirmando que a salvação só se obtém em Jesus Cristo16.
Estes poderes espirituais tão grandes são dados para o bem da Igreja, e, como esta deve durar até o fim dos tempos, esses poderes transmitir‑se‑ão aos que sucederem a Pedro ao longo da história. O Magistério da Igreja sempre sublinhou esta verdade, e a Constituição dogmática do Concílio Vaticano II sobre a Igreja afirma: “Este santo Concílio, seguindo os passos do Concílio Vaticano I, ensina e declara com ele que Jesus Cristo, Pastor Eterno, […] instituiu em Pedro o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade da fé e da comunhão. Esta doutrina sobre a instituição, perpetuidade, poder e natureza do sagrado primado do Romano Pontífice, e sobre o seu Magistério infalível, é proposta novamente por este santo Concílio para ser crida firmemente por todos os fiéis”17. O Romano Pontífice é o sucessor de Pedro; unidos a ele, estamos unidos a Cristo.
O nosso amor pelo Papa não é apenas um afeto humano, baseado na sua santidade, simpatia, etc. Quando vamos ver o Papa, escutar a sua palavra, fazemo‑lo para ver e ouvir o Vigário de Cristo, o “doce Cristo na terra”, na expressão de Santa Catarina de Sena, seja ele quem for.
“O teu maior amor, a tua maior estima, a tua mais profunda veneração, a tua obediência mais rendida, o teu maior afeto hão de ser também para o Vice‑Cristo na terra, para o Papa.
“Nós, os católicos, temos de pensar que, depois de Deus e da nossa Mãe a Virgem Santíssima, na hierarquia do amor e da autoridade, vem o Santo Padre”18.
III. UMA ANTIGA FÓRMULA resume em muito poucas palavras o conteúdo da doutrina sobre o Romano Pontífice: Ubi Petrus, ibi Ecclesia, ibi Deus19. Onde está Pedro, aí está a Igreja, aí encontramos também a Deus. “O Romano Pontífice – ensina o Concílio Vaticano II –, como sucessor de Pedro, é o princípio e o fundamento perpétuo e visível da unidade, tanto dos bispos como do conjunto dos fiéis”20. “E o que seria dessa unidade se não houvesse alguém colocado à frente de toda a Igreja, que a abençoasse e guardasse, e que unisse todos os seus membros numa só profissão de fé e os ligasse com um laço de caridade e de união?”21 A união desfar‑se‑ia em mil pedaços e ficaríamos como ovelhas dispersas, sem uma fé segura em que crer, sem um caminho claro por onde andar.
Nós queremos estar com Pedro, porque com ele está a Igreja, com ele está Cristo; e sem ele não encontraremos a Deus. E porque amamos a Cristo, amamos o Papa: com a mesma caridade. E assim como estamos com o olhar fixo em Jesus, nos seus desejos, nos seus gestos, em toda a sua vida, assim nos sentimos unidos ao Romano Pontífice até nos menores detalhes: amamo‑lo sobretudo por Aquele que representa e de quem é instrumento. “Ama, venera, reza, mortifica‑te – cada dia com mais carinho – pelo Romano Pontífice, pedra basilar da Igreja, que prolonga entre todos os homens, ao longo dos séculos e até o fim dos tempos, aquela tarefa de santificação e de governo que Jesus confiou a Pedro”22.
Os Atos dos Apóstolos põem de manifesto o amor e a devoção que os primeiros cristãos sentiam por Pedro: Traziam os doentes para a rua e punham‑nos em leitos e enxergões, a fim de que, quando Pedro passasse, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles23. Contentavam‑se com que a sombra de Pedro os cobrisse. Sabiam que Cristo estava bem junto dele!
Com a sua palavra, recebemos uma luz meridiana no meio das doutrinas confusas que – hoje como no passado – são proclamadas por tantos falsos profetas e tantos falsos doutores. Tenhamos fome de conhecer os ensinamentos do Papa e de os dar a conhecer no nosso ambiente. Aí está a luz que ilumina as consciências; façamos o propósito de receber a sua palavra com docilidade e obediência interna, com amor24.
(1) Mt 16, 13‑20; (2) cfr. Mc 8, 27; Lc 9, 18; (3) João Paulo II, Homilia da Missa em Belo Horizonte, 1‑VII‑1980; (4) ib.; (5) Josemaría Escrivá, Forja, n. 136; (6) Is 22, 19‑23; (7) cfr. Jo 21, 15‑18; (8) Jo 1, 42; (9) São Leão Magno, Homilia 4; (10) Mt 10, 2 e segs.; At 1, 13; (11) At 1, 15‑22; (12) At 2, 14‑36; (13) At 4, 8 e segs.; (14) At 5, 1 e segs.; (15) At 10, 1 e segs.; (16) At 15, 7‑10; (17) Conc. Vat II. Const. Lumen gentium, 18; (18) Josemaría Escrivá, op. cit., n. 135; (19) Santo Ambrósio, Comentário ao Salmo XII, 40, 30; (20) Conc. Vat. II, op. cit., 23; (21) Gregório XVI, Enc. Commissum divinitus, 15‑VI‑1835; (22) Josemaría Escrivá, op. cit., n. 134; (23) At 5, 15; (24) cfr. Conc. Vat. II, op. cit., 25.
