
TEMPO COMUM. VIGÉSIMO SEXTO DOMINGO. CICLO A
19. A VIRTUDE DA OBEDIÊNCIA
– Parábola dos dois filhos enviados à vinha. A obediência nasce do amor.
– O exemplo de Cristo. Obediência e liberdade.
– Desejos de imitar Jesus.
I. QUE VOS PARECE?, começou Jesus, dirigindo‑se aos que o rodeavam. Um homem tinha dois filhos, e, aproximando‑se do primeiro, disse‑lhe: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha. Ele respondeu‑lhe: Não quero. Mas depois, tocado de arrependimento, foi. Disse o mesmo ao segundo. E este respondeu: Eu vou, senhor; mas não foi. Jesus perguntou qual dos dois tinha cumprido a vontade do pai. E todos responderam: o primeiro, o que foi trabalhar na vinha. E Jesus prosseguiu: Na verdade, digo‑vos que os publicanos e as meretrizes vos precederão no reino de Deus. Porque veio a vós João pelo caminho da justiça, e não crestes nele; mas os publicanos e as meretrizes creram nele1.
João Batista tinha mostrado o caminho da salvação, e os escribas e os fariseus, que se ufanavam de serem fiéis seguidores da vontade divina, não lhe fizeram caso. Teoricamente, eram os cumpridores da Lei, mas à hora da verdade, quando lhes chegou aos ouvidos a vontade de Deus por boca de João, não souberam ser dóceis ao querer divino. Estavam no caso do filho que começou por dizer que ia, mas não foi. Em contrapartida, muitos publicanos e pecadores atenderam ao apelo à penitência e arrependeram‑se: eram o filho que a princípio disse “não vou”, mas depois foi. Obedeceu, agradou ao seu pai com obras.
O próprio Senhor nos deu exemplo de como devemos cumprir esse querer divino, pois “para cumprir a vontade do Pai, inaugurou na terra o Reino dos Céus, revelou‑nos o seu mistério e realizou a redenção pela sua obediência”2. São Paulo, na segunda Leitura da Missa3, sublinha o amor de Jesus Cristo por esta virtude: sendo Deus, humilhou‑se a si mesmo, feito obediente até à morte, e morte de cruz. Naqueles tempos, a morte de cruz era a mais infamante, pois estava reservada aos piores criminosos. Eis por que a máxima expressão do amor de Cristo pelos planos salvíficos do Pai consistiu em obedecer até à morte de cruz.
Cristo obedece por amor; este é o sentido da obediência cristã: da que se deve a Deus, da que devemos prestar à Igreja, aos pais; aos superiores, àqueles que de um modo ou de outro regem a vida profissional e social. Deus não quer servidores de má vontade, mas filhos que queiram obedecer com alegria. Santa Teresa conta que, considerando um dia as grandes penitências a que se entregava uma boa mulher sua conhecida, sentiu uma santa inveja e pensou que ela também as poderia fazer, não fosse a proibição taxativa que recebera do seu confessor. Foi tanta a vontade que teve de imitar aquela mulher penitente que pensou por um momento se não seria melhor desobedecer à ordem que lhe fora dada. Então Jesus disse‑lhe: “Isso não, filha; levas bom caminho e seguro. Vês toda a penitência que faz? Em maior conta tenho Eu a tua obediência”4.
II. A OBEDIÊNCIA DE JESUS – como nos ensina São Paulo –não consistiu simplesmente em deixar‑se submeter à vontade do Pai. Ele próprio se fez obediente: a sua obediência ativa assumiu como próprios os desígnios do Pai e os meios para alcançar a salvação do gênero humano.
Um dos sinais mais claros de que se anda pelo bom caminho – o da humildade – é o desejo de obedecer5, “ao passo que a soberba nos inclina a fazer a vontade própria, a procurar o que nos exalta e a não querer deixar‑nos dirigir pelos outros, mas a dirigi‑los. A obediência é o oposto da soberba. Mas o Unigênito do Pai, vindo do Céu para nos salvar e curar da soberba, fez‑se obediente até à morte na cruz”6. Ele ensinou‑nos para onde devemos dirigir os nossos passos: Lâmpada para os meus passos é a tua palavra, e luz para os meus caminhos, recitam hoje os sacerdotes na Liturgia das Horas7.
A obediência nasce da liberdade e conduz a uma maior liberdade. Quando o homem renuncia à sua vontade para obedecer a Deus, conserva a liberdade na determinação radical e firme de escolher o que é bom e verdadeiro. Quem escolhe uma auto‑estrada para chegar antes e com maior segurança ao seu destino, não se sente coagido pelos limites e indicações que encontra; a corda que ata um alpinista aos seus companheiros de escalada não é cadeia que o perturbe – ainda que o prenda fortemente –, mas vínculo que lhe dá segurança e evita que caia no abismo; os ligamentos que unem as diversas partes do corpo não são liames que impedem os movimentos, mas garantia de que estes se realizem com desembaraço e firmeza.
É o amor que faz com que a obediência seja plenamente livre. Como pensar que Cristo – que tanto amou e nos inculcou esta virtude – não o fosse? “Para quem queira caminhar em seguimento de Cristo, a lei não é pesada. Só se converte num fardo quando não se consegue ver nela a chamada de Jesus ou não se tem vontade de seguir essa chamada. Portanto, se a lei às vezes se torna pesada, pode ser que tenhamos de melhorar não tanto a lei como o nosso empenho em seguir o Senhor.
“Se me amais, observareis os meus mandamentos (Jo 14, 15). Esta é a razão por que quero obedecer‑te a Ti e à tua Igreja, Senhor; não principalmente por compreender a racionalidade do que se manda (ainda que essa racionalidade seja tantas vezes evidente), mas – principalmente – por que quero amar‑Te e demonstrar‑Te o meu amor. E também porque estou convencido de que os teus mandamentos procedem do amor e me tornam livre. Corri pelos caminhos dos teus mandamentos quando dilataste o meu coração… Caminharei por uma senda larga, porque busquei os teus mandamentos (Sl 119, 32‑45)”8.
III. A OBEDIÊNCIA vale mais do que as vítimas9, lemos na Sagrada Escritura. “É com razão – comenta São Gregório Magno – que se antepõe a obediência às vítimas, porque mediante as vítimas imola‑se a carne alheia, ao passo que pela obediência imola‑se a vontade própria”10, que é a coisa mais difícil de entregar, porque é o que possuímos de mais íntimo e pessoal. Por isso é tão grata ao Senhor, e por isso o empenho de Jesus – a quem os ventos e o mar obedecem11 – em ensinar‑nos com a sua palavra e a sua vida que o caminho do bem, da paz da alma e de todo o progresso interior passa pelo exercício desta virtude.
Já dizia o Antigo Testamento: Vir obediens loquetur victoriam12, quem obedece alcança vitória, “quem obedece, vence”, obtém a graça e a luz necessárias, pois recebe o Espírito Santo, que Deus concede a todos os que lhe obedecem13. “Ó virtude de obedecer, que tudo podes!”, exclamava Santa Teresa14. Por serem tantos os bens que derivam do exercício desta virtude, e por se tratar do caminho que leva mais diretamente à santidade, o demônio procurará semear no nosso espírito falsas razões e desculpas para não obedecermos15. Temos de repelir as suas sugestões prontamente: “O inimigo: – Vais obedecer… até nesse pormenor «ridículo»? – Tu, com a graça de Deus: – Vou obedecer… até nesse pormenor «heróico»”16.
A necessidade de obedecer não provém somente dos bens tão imensos que traz à alma, mas da sua íntima união com a Redenção: é parte essencial do mistério da Cruz17. Portanto, quem pretendesse estabelecer limites à obediência querida por Deus, limitaria ao mesmo tempo a sua união com Cristo e dificilmente poderia identificar‑se com Ele: Tende nos vossos corações os mesmos sentimentos que teve Jesus Cristo, o qual, possuindo a natureza de Deus…, não obstante aniquilou‑se a si mesmo tomando a forma de servo18.
O desejo de imitar Cristo deve fazer com que nos perguntemos freqüentemente: Faço neste momento o que Deus quer, ou deixo‑me levar pelo capricho, pela vaidade ou pelo estado de ânimo? A minha obediência é sobrenatural, interna, pronta, alegre, humilde e discreta?19
“Obedece sem tantas cavilações inúteis… Mostrar tristeza ou pouca vontade perante o que se manda é falta muito considerável. Mas senti‑la apenas, não somente não é culpa, mas pode ser uma grande ocasião de nos vencermos a nós mesmos, de coroarmos um ato heróico de virtude.
“Não sou eu que o invento. Lembras‑te? Narra o Evangelho que um pai de família confiou o mesmo encargo aos seus dois filhos… E Jesus alegra‑se com aquele que, apesar de ter levantado dificuldades, cumpre! Alegra‑se porque a disciplina é fruto do Amor”20.
Peçamos a Nossa Senhora – que sempre se considerou e se comportou como a escrava do Senhor – um grande desejo de identificar‑nos com Cristo mediante a obediência, ainda que algumas vezes nos custe.
(1) Mt 21, 28‑32; (2) Concílio Vaticano II, Constituição Lumen gentium, 3; (3) Fil 2, 1‑11; (4) Santa Teresa, Contas de consciência, 20; (5) São Tomás de Aquino, Comentário à Epístola aos Filipenses, 2, 8; (6) Réginald Garrigou‑Lagrange, Las tres edades de la vida interior, vol. II, pág. 683; (7) Liturgia das Horas, Primeiras Vésperas; Sl 119, 105; (8) Cormac Burke, Autoridad y libertad en la Iglesia, pág. 75; (9) 1 Sam 15, 22; (10) São Gregório Magno, Moralia, 14; (11) Mt 8, 27; (12) Prov 21, 28; (13) At 5, 32; (14) Santa Teresa, Vida, 18, 7; (15) Santa Teresa, Fundações, 5, 10; (16) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho, n. 618; (17) cfr. São Tomás de Aquino, Comentário à Epístola aos Romanos, V, 8, 5; (18) Fil 2, 5‑7; (19) cfr. São Tomás de Aquino, Suma teológica, II‑II, qq. 104 e 105; q. 108, aa. 5 e 8; (20) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Sulco, n. 378.
